::30/07/2007

13 dias no anonimato
Desertor da seleção cubana de handebol se ‘exilou’ em Itapira

Rafael Capote foi o primeiro de quatro ‘fugitivos’ durante o Pan

Paulo Henrique Tenorio
paulo@jornaloimpacto.com.br,
do jornal O Impacto, de Mogi Mirim

Itapira foi a cidade onde o desertor Rafael Capote, 19, armador da seleção cubana de handebol, permaneceu 13 dias longe do alcance da mídia. Ele abandonou a delegação de seu país um dia antes da abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Depois de descoberto pela Rede Globo no dia 16, em São Caetano do Sul, foi levado para Itapira pelo atleta e capitão do time do Imes, de São Caetano do Sul, Luiz Carlos de Araújo Júnior, 28, que é itapirense.
Anteontem, o cubano voltou para o ABC para iniciar o processo de regularização para continuar morando no Brasil. Ele vai tentar asilo político, uma vez que a condição de desertor provoca o risco de ser extraditado para Cuba. O objetivo é vestir a camisa da equipe de São Caetano já a partir de agosto, quando começa a fase final do Campeonato Paulista de Handebol.
Quando fugiu da Vila Pan-Americana, no dia 12, quinta-feira, Rafael Capote gastou pouco mais de R$ 600 para seguir de táxi do Rio de Janeiro até São Paulo. O armador titular da seleção cubana foi ao encontro do goleiro cubano Michel, que defende o Imes de São Caetano do Sul.
A partir daí, jogadores do Imes tentaram de todas as formas esconder Rafael Capote, porque ainda existia o risco de ele ser detido pela segurança cubana e levado para Cuba. Por isso, sua permanência em São Caetano não poderia durar muito tempo. Ao ser descoberto por uma equipe da Rede Globo, Capote seguiu com Luiz Carlos até Itapira.
Ele chegou na vizinha cidade na noite do dia 16, segunda-feira. Ficou lá até a noite de anteontem, quando retornou para São Caetano do Sul. “Agora estou mais tranqüilo de acertar a minha situação para poder jogar”, afirmou o cubano em entrevista exclusiva a O Impacto.
O jogador de 2 metros não é de conversar muito. Mas demonstrou tranqüilidade para falar da sua deserção antes do início do Pan. Não se arrependeu do ato, mesmo sendo duramente criticado por dirigentes e atletas de seu país. Abandonou a Vila do Pan pensando apenas no seu futuro por acreditar que não há crescimento profissional no país comandado por Fidel Castro. Capote tem a consciência de que apostou numa decisão sem volta. Para ele, só resta a pensar na nova etapa da vida.
A FUGA
A delegação de Cuba chegou ao Brasil a poucos dias da abertura do Pan, realizada no dia 13. Rafael Capote não esperou muito tempo. “Já havia pensando (em desertar) quando vim para o Brasil. Mas era complicado, porque a segurança era muito rigorosa em cima da gente. Só esperei o momento certo para sair”, afirmou. Foi o que fez. Na noite de quinta-feira, 12, ele conseguiu deixar a Vila do Pan.
Correu por alguns quilômetros com o agasalho de Cuba. Não carregou mais nada. Primeiro pegou um ônibus e, em seguida, pagou R$ 600 para deixar o Rio de Janeiro. “Alguém poderia agir de má fé e roubar todo o dinheiro dele. Ele estava assustado e não sabia para onde ir”, afirmou Luiz Carlos. De táxi Rafael Capote viajou até São Caetano do Sul, onde chegou até a casa habitada por jogadores do Imes, entre eles o goleiro Michel, que também desertou da seleção cubana há um ano.
“Tinha contato com o Michel através da internet, às vezes nos falamos por telefone. Tinha conversado algumas vezes”, disse Capote, sustentando a tranqüilidade de quem estava decidido a abandonar o seu país. “Tomei esta decisão há pouco tempo, pois sabia que tinha chances de seguir jogando pela seleção do meu país, mesmo disputando competições importantes”, disse Capote, que apesar dos 19 anos, vinha atuando como titular de sua seleção.
Na casa de Michel, a apreensão tomou conta de jogadores e dirigentes do Imes. “Sabíamos que havia um risco de esconder um atleta desertor”, contou o capitão do Imes. “Por isso, começamos a levá-lo para um lado e para o outro porque não queríamos chamar a atenção”, relatou Luiz Carlos. No domingo, 14, surgiram as primeiras informações na mídia sobre o desertor cubano. “Sabíamos que o risco iria aumentar”, completou Luiz Carlos.
NA GLOBO
Na manhã de segunda-feira, uma equipe da Rede Globo achou o ‘esconderijo’ de Rafael Capote. “Eles reviraram São Caetano para encontrar esta casa”, frisou o capitão do Imes. O cubano havia passado a noite em uma outra casa, em Guarulhos. Quando voltou para São Caetano, foi surpreendido pela equipe da Globo. O desertou apareceu nos principais telejornais da emissora. Seria um risco continuar no ABC paulista.
A nova missão de esconder Rafael Capote foi rápida. “Conversei com um dirigente do Imes e decidi trazê-lo para Itapira. Foi a decisão mais acertada”, destacou Luiz Carlos. Na noite de segunda-feira, 16, o cubano estava em Itapira. Não ficou na casa de Luiz Carlos, como forma de preservar a família. Capote alternou de endereço durante todos os dias. Ficou em um sítio e em um apartamento. Durante todo este tempo, sua presença foi notada. Porém, a missão de ocultar o desertor foi alcançada.
Ao longo de 13 dias em Itapira, Capote não se desligou da televisão. Viu jogos de todas as competições, em especial envolvendo equipes de Cuba. “É claro que bate uma saudade, uma vontade de jogar, mas é preciso entender que optei por um futuro melhor. Espero que seja assim”, disse Capote.
Em Itapira, o cubano se arriscou com novas amizades, todas ligadas ao jogador do Imes. Veio parar até em Mogi Mirim, onde conheceu o Bar&Cia – Bar do Carlinhos. E a sua convivência com brasileiros rendeu a Capote o gosto pelo futebol, esporte pouco popular na ilha de Fidel Castro. O cubano até adotou o seu clube do coração: “o São Paulo”.
HISTÓRICO
Não é de hoje que Cuba sofre com problema de deserções. Como a ditadura de Fidel Castro restringe o direito de ir e vir, atletas aproveitam grandes eventos, como o Pan, para sair do país e não voltar mais.
Ao todo, são mais de 80 casos. O mais famoso é o do jogador de beisebol Danys Baez. Ele conquistou a medalha de ouro no Pan de Winnipeg, no Canadá, em 1999. Não foi buscar a medalha porque preferiu ficar por lá. Além dele, outros 12 atletas não quiseram voltar para Cuba.
Antes do Pan, o último caso de deserção em solo brasileiro foi a do goleiro Michel, que abandonou a seleção de Cuba no ano passado, numa série de amistosos contra o Brasil. Rafael Capote concorda que a decisão é muito pessoal. “Acho uma coisa muito complicada abandonar o país, deixar de jogar pela seleção de seu país. Outros companheiros desertaram e foram criticados”, disse.
Rafael Capote não voltará mais para casa. Deixou os pais e o irmão mais novo numa cidade próxima a Havana. Mas sabe que optou por aquilo que achou melhor, sem criticar o regime implantado por Fidel Castro. “O problema é que não há uma estrutura muito forte para o esporte. Pensei apenas no meu futuro”, frisou o jogador.