::12/12/2007
‘O
Brasil é marcado lá fora como o país da corrupção’
Um
dos mais conceituados jornalistas de toda a região, Paulo
Rogério Tenório está temeroso quanto à
realização da Copa de 2014 no Brasil. “Fiquei
entusiasmado como torcedor, mas como jornalista encaro com muito
temor, pois o Brasil é marcado, principalmente lá
fora, como o país da corrupção”, frisa.
Aos 36 anos, formado em Jornalismo pela PUC (Pontifícia Universidade
Católica) de Campinas, Paulo Rogério Tenório
trabalhou por mais de 12 anos no jornal O Impacto, de Mogi Mirim,
chegando a editor-chefe, depois de ser repórter policial
e esportivo – sua especialidade – e redator-chefe. Desde
2004 exerce a função de editor-chefe no Tribuna de
Itapira, periódico de maior circulação no município
e dos mais importantes jornais da região. No rádio,
uma de suas paixões, perambulou por emissoras da região
como repórter e até narrador. Hoje assina também
uma coluna no portal Esporte Itapirense.
Entre uma edição e outra do trissemanário em
que atua profissionalmente, Paulão, como é carinhosamente
chamado pelos amigos, respondeu ao Esporte Itapirense sobre diversos
assuntos, entre eles a indicação do Brasil para sede
da Copa de 2014, o rebaixamento do Corinthians e o futebol itapirense.
ESPORTE
ITAPIRENSE - Como você viu a indicação
do Brasil para sede do Mundial de 2014? Acredita que o país
tem condições de organizar um evento dessa envergadura?
PAULO
ROGÉRIO TENORIO - Como torcedor fiquei muito entusiasmado.
Quem sabe é a chance, no meu caso, de assistir a uma Copa
do Mundo ‘in loco’. Agora, falando como jornalista,
encaro tudo com muito temor. O Brasil é marcado, principalmente
lá fora, como o país da corrupção. São
‘ene’ exemplos. E tenho medo do evento ficar marcado
pela concessão de benesses aos grupos que fazem parte da
organização, principalmente aqueles cujos interesses
são mantidos pelo dinheiro público. Além disso,
será complicado se adequar a um advento de tamanha envergadura.
Certamente vamos conseguir organizar, mas não no mesmo nível
dos países asiáticos ou mesmo europeus. Será
uma Copa do Mundo com a marca registrada do Brasil, sem tantas pompas,
circunstâncias e, espero estar errado, uma organização
esmerada. Fora isso, dentro de campo certamente a bola vai rolar.
Fora dele será o grande problema.
ESPORTE
ITAPIRENSE - A França sediou a Copa de 98 e Michel
Platini foi quem encabeçou os trabalhos. A Alemanha, em 2006,
realizou o Mundial tendo Franz Beckenbauer à frente. O Brasil,
com certeza, terá Ricardo Teixeira. Qual sua análise
sobre essa relação entre os três eventos?
PAULO
ROGÉRIO TENORIO - Triste. Principalmente porque
Ricardo Teixeira dirige a principal entidade do futebol brasileiro,
cuja principal característica é a desorganização.
E desorganização não combina com Copa do Mundo.
É certo que a Fifa bancará pessoas mais capacitadas
para a organização do mundial e fará o acompanhamento
minucioso durante o passar dos anos até a chegada do evento.
Mas, por aqui, precisaríamos de nomes mais envolventes e
reconhecidos para divulgar nosso mundial. E deixar Pelé,
o Atleta do Século, fora disso, beira a ignorância.
ESPORTE
ITAPIRENSE - O ano de 2007 ficará marcado como o
ano em que o Corinthians, dono da segunda maior torcida do país,
foi para a 2ª divisão. Palmeiras, Botafogo, Grêmio,
Atlético Mineiro e Coritiba, todos com títulos nacionais
no currículo, caíram e subiram. E o Corinthians, o
que precisa fazer para voltar o mais rápido possível?
PAULO
ROGÉRIO TENORIO - Primeiramente, desvincular-se
de qualquer dirigente que tenha mantido qualquer tipo de relação
com a MSI – entenda-se também o atual presidente do
clube, Andrés Sanchez. O administrativo do Corinthians está
contaminado, corrompido desde as entranhas. Um clube que tem a torcida
que tem não pode se sujeitar a ser dirigido por pessoas tão
incapazes. Este é o primeiro passo. Também não
adianta formar um time médio, voltar à elite e continuar
com os mesmos problemas estruturais. A queda deve servir para o
Corinthians reencontrar o rumo e não ficar à mercê
de, mais adiante, sofrer tudo isso novamente.
ESPORTE
ITAPIRENSE - A parceria com a MSI, há dois anos,
pode ser encarada como se o clube tivesse vendido a alma ao diabo
e agora ele tivesse vindo cobrar?
PAULO
ROGÉRIO TENORIO - Mais ou menos isso. O problema
do Corinthians foi se entregar de corpo e alma em um negócio
que vinha sendo dissecado diariamente pela mídia como algo
ruim. Mas os interesses financeiros falaram mais alto e deu no que
deu.
ESPORTE
ITAPIRENSE - Passando para o futebol doméstico,
a Esportiva Itapirense acaba de subir à série A-3
do Campeonato Paulista. A tarefa em 2008 será bem mais difícil,
com adversários de tradição e mais fortes.
O que deve ser feito para o clube, pelo menos, permanecer na série
A-3?
PAULO
ROGÉRIO TENORIO - Primeiro, a partir de agora, organizar-se
profissionalmente. A Segunda Divisão é um misto entre
várzea e profissional. A partir da A-3, não. Daí
o profissionalismo impera. E buscar apoio junto a pessoas que vivem
o futebol na sua essência. Não adianta abrir as portas
para empresários interessados somente na autopromoção
de seus atletas. É preciso criar mecanismos para a Vermelhinha
tentar subsistir como clube de futebol. E para isso será
importante demais investir na base, que pode responder por lucro
100% adiante, a partir da venda de atletas. A base será um
grande trunfo, caso a Esportiva queira lograr êxito nessa
nova empreitada.
ESPORTE
ITAPIRENSE - Esse momento do futebol itapirense pode servir
como impulso para que a cidade se projete no futebol, como ocorreu
com Mogi Mirim quando o Mogi era conhecido como Carrossel Caipira?
PAULO
ROGÉRIO TENORIO - Sem dúvida. A cidade será
mais vista, principalmente se conseguirmos subir ainda mais. A mídia
foca todas as suas fichas no esporte mais popular do planeta. E
ter um time defendendo as cores da cidade é importantíssimo.
ESPORTE
ITAPIRENSE - Finalizando, a Copa Itapira dos dias atuais
está longe de ter a projeção de 10 anos atrás.
Qual a receita para transformar a competição em um
evento atrativo para o torcedor, como ocorria antigamente?
PAULO
ROGÉRIO TENÓRIO - Será muito difícil.
Não há mais identidade entre clube-bairro, atleta-clube,
etc. Hoje virou tudo mercantilismo ou mesmo autopromoção.
O cidadão reforça seu time para se candidatar a vereador
daqui quatro anos, ou o cara forma um time para se autopromover
pensando em outros interesses. E sem contar a ‘profissionalização’
do amador, quando os dirigentes pagam exorbitâncias para terem
determinados atletas em seu quadro. Além disso, a cidade
cresceu muito, foi engolida pela globalização e não
há mais aquela relação até certo ponto
apaixonada entre os moradores de determinados bairros. Clubes tradicionais
morreram e agora são os grupos de amigos que se mantêm
na disputa. Certamente não teremos mais as glamourosas rivalidades
sadias entre os bairros no futebol amador, mas pelo menos um mínimo
de organização seria essencial para não termos
o papelão que foi a Primeira Divisão desse ano, cujo
jogo final sequer chegou ao final.
|